Autenticidade é o novo luxo
Publicado Set 03, 2026 Jornal Eco
Bem-vindos a 2026, o ano em que todos escrevem bem.
Influenciadores que publicavam um emoji de um coração a acompanhar um post, de
repente filosofam sobre emoções com uma profundidade digna de um ensaio.
Proliferam os artigos de opinião que, se forem realmente a opinião dos seus
signatários, revelam a ausência da mesma, tal o tom morno e o desfile de
lugares-comuns. Cada vez mais, o mundo dos conteúdos faz lembrar a Feira do
Relógio, onde só os distraídos não percebem que a Naike, a Abibas e a Locaste não
são as marcas originais.
A IA está a tornar-se numa espécie de Ozempic empresarial,
usada indiscriminadamente e com a qual nos preocupamos mais com a forma do que
com o conteúdo, apesar de estar tudo dito sobre a diferença entre ser uma
ferramenta e não uma solução universal.
Mas esta pandemia do “Valter Hugo Mãe prêt-à-porter” tem
outras variações mais preocupantes. Na relação entre clientes e agências
passámos, em alguns casos, de ausência de briefings — com a justificação do
“não queremos condicionar a vossa criatividade” — para compêndios quase
académicos.
Estes últimos definem cada deliverable a um
nível de exigência que os próprios clientes não têm capacidade de avaliar e
redundam em orçamentos que, muitas vezes, inviabilizam o concurso. Alguns
clientes dirão o mesmo sobre certas propostas, descoberta a fórmula de
responder a 10 concursos em vez de cinco.
Que fique bem claro: eu gosto desta espécie de prótese para
quem não tem recursos, seja para escrever, para fazer uma imagem ou um vídeo
que resume um team building. Só não aguento aquela
chico-espertice de quem usa a IA para trabalhar menos e hipoteca o seu
pensamento crítico e capacidade de análise. Ou quem acha que pode fazer negócio
com o que a IA faz, só porque fez um curso de dois dias de prompt
engineering.
Há uma espécie de ironia apocalíptica entre quem esfrega as
mãos com a IA porque faz um texto ou uma maquete em 30 segundos e quem perdeu
clientes ou emprego porque produzia conteúdos ou vídeos para redes sociais. Os
tempos são estes. Quem perder o comboio da IA perde competitividade e
agilidade. Mas quem assenta o seu trabalho ou o seu negócio na IA também tem
uma proposta de valor com a resistência de um cata-vento em dia de tempestade.
No tempo da IA, seja qual for o negócio, o valor da
autenticidade aumentou. Queremos textos autênticos com opiniões que acrescentem
ou nos façam pensar, queremos design que seja mais do que imagens bonitas, mas
reflita valores e detalhes que só quem conhece vai sentir, queremos soluções
desenvolvidas a pensar em nós e não como resposta a um prompt cuja
resposta pode ser semelhante noutro país ou, quem sabe, aqui ao lado.
No fim do dia, a IA não veio substituir o talento. Veio
expô-lo. Quem tem pensamento crítico, experiência e uma voz própria trabalha
melhor e mais depressa. Quem não tem, apenas produz mais depressa aquilo que já
era mediano.
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